19/03/2009

ASSIM, NÃO!

A União Europeia prepara-se para permitir a mistura de vinhos brancos com vinhos tintos na elaboração dos vinhos de mesa, em concreto vinhos rosados, possibilidade até agora proibida nos países comunitários. No entanto, irá ser permitido aos estados membros a opção de restringir esta prática aos vinhos com denominação de origem ou com origem geográfica protegida (DOC e VQPRD). Esta medida insere-se numa nova regulamentação comunitária sobre práticas enológicas que possibilitará também, entre outras, a adição de componentes como o PVI ou o PVP para redução dos teores de cobre, ferro e metais pesados, a adição de goma celulósica, a desalcoolização dos vinhos e a opção de estabilização por acção química (tratamento por catiões). Estes métodos, permitidos pela Organização Internacional do Vinho, já são prática frequente nos países do Novo Mundo produtores de vinho (Austrália, África do Sul, Argentina, Nova Zelândia...).

Num acordo firmado recentemente com a Austrália sobre a protecção das denominações dos vinhos europeus, em consonância com o alcançado com os EUA, a UE permitiu a importação para o espaço europeu de vinhos australianos com um teor de álcool inferior a 8% do volume (a actual regulamentação comunitária define que a comercialização de um produto sob a denominação "vinho" só seja possível com um grau alcoólico igual ou superior a 8%). A desalcoolização dos vinhos é processada através do método de osmose inversa.

Em França, a Associação de Produtores de Vinho já classificou a mistura do vinho branco com o vinho tinto como uma "aberração" uma vez que irá criar "confusão ao consumidor sobre a distinção entre um vinho rosé tradicional e outro branco no qual foram adicionadas umas gotas de tinto".

Claro, digo eu, que o bebam eles!!!

O facto é que esta nova regulamentação já foi analisada e aceite pelos peritos da UE e remetida para a Organização Mundial de Comércio. Passada esta fase, deverá ser ratificada pela União Europeia.

Pela minha parte, irei manter-me fiel à tradição:

B T M

ou seja,

Branco e Tinto só do Melhor

(... e sem misturas!)

Artur Mesquita

16/03/2009

Galileu Galilei

A comemoração do Ano Internacional da Astronomia durante este ano, em Portugal a cargo da Sociedade Portuguesa de Astronomia, veio recordar e sensibilizar as pessoas para o impacto que essas observações tiveram para a ciência e, mais concretamente, para as nossas vidas. Também durante 2009, assinalam-se os 400 anos das primeiras observações astronómicas de Galileu Galilei, homem com uma dedicação extrema a tudo o que acreditava!

Galileu era uma pessoa que acreditava na matemática como um instrumento superior à própria lógica. A sua permanente curiosidade científica era apoiada essencialmente em métodos experimentais limitados a regras matemáticas pré-concebidas. Estávamos em 15 de Fevereiro de 1564, na cidade de Pisa, data do seu nascimento. Sem o conhecimento que hoje possuimos, não deixa de ser extraordinário os conceitos que utilizava na condução das suas experiências científicas...

Da sua vida, destacam-se dois importantes momentos em termos científicos. Em 1632, ou seja, com a idade de 68 anos (!!!), publica "O Diálogo sobre os Dois Sistemas do Mundo" para no ano seguinte ser obrigado pela Igreja Católica (facilmente podemos imaginar o poder que a Igreja tinha sobre as pessoas...) a abjurar as suas convicções, condenando-o à prisão. A publicação de qualquer trabalho seu tornou-se proibida pelo Index. E em 1638, com a idade de 74 anos (!!!), publica o seu último livro intitulado "Discurso das Duas Novas Ciências, Mecânica e Dinâmica" cuja cópia manuscrita tinha sido contrabandeada para França.

Algumas invenções
  • termoscópio, o microscópio, o telescópio, o relógio de pêndulo, a balança hidrostática...
Contribuições específicas para as várias ciências
  • Harvey usou o princípio de medida de pulsação através de pêndulo para calcular a capacidade de bombagem do coração - 234kg de sangue/hora;
  • Fez inúmeras contribuições para a compreensão das leis que regulam o movimento dos objectos - aceleração da gravidade;
  • O conceito de inércia quando definiu que "Na ausência de uma força, um objecto continua a mover-se com movimento rectilíneo e com velocidade constante"...

Morreria em 1642 para alguns meses mais tarde nascer Isaac Newton que se encarregaria de desenvolver as suas leis do movimento acabando de vez com as ideias de Aristóteles que tinham dominado as mentes durante quase 2000 anos.

Galileu apoiou a teoria de Copérnico de um universo heliocêntrico, de uma Terra móvel à volta do Sol - "Eppur si muove" - conceito que provou experimentalmente. Não conseguiu evitar as acusações de heresia movidas pela Inquisição. Somente em 1982, por intermédio do Papa João Paulo II, a igreja se iria redimir deste erro. Será que sim? Quantos Galileus ainda existem ou existiram sem que a "remissão dos seus pecados fosse permitida pela Igreja Católica"?

Artur Mesquita

Vinho e Saúde I

A equipa de David Teplow, investigador na UCLA-University of California Los Angeles, descobriu o papel dos vários polifenóis que integram o vinho na luta contra as doenças cardíacas e contra a doença de Alzheimer. Anteriormente, já alguns investigadores europeus tinham adiantado algumas descobertas nesta área, mas Teplow avançou mais um pouco nas explicações científicas. Diz a reportagem do El Mundo que "os investigadores da UCLA descobriram o motivo pelo qual quem bebe vinhos tintos costuma estar a salvo das doenças do coração e, noutra vertente mas ao mesmo tempo, conseguiram identificar uma substância natural que pode anular parcialmente os efeitos da doença de Alzheimer".

Teplow e a sua equipa verificaram e estudaram a forma como os polifenóis do vinho bloqueiam a formação de proteínas que formam a placa tóxica no circuito sanguíneo. Há já muito tempo que se especula que esta placa obstruiria as artérias originando a doença de Alzheimer. Esta importante investigação publicada recentemente numa edição do Journal of Biological Chemistry, recorreu a ratos em laboratório para explicar a mecânica da acção anti-placa dos diferentes polifenóis. Os cientistas injectaram polifenóis destilados de bagos de uva nestes animais e observaram que não só tinham impedido a formação das proteínas danosas, mas também, tinham conseguido reduzir a sua toxicidade. Puderam verificar como dois tipos de proteínas que se encontram no sangue humano podem causar cardiopatias ou a doença de Alzheimer. Esta descoberta está pronta a ser testada em seres humanos, podendo converter-se no primeiro tratamento que consegue atrasar significativamente o desenvolvimento da doença de Alzheimer.

Fonte:RV/El Mundo

Vinho e Saúde II

Um grupo de cientistas que trabalhou em colaboração com cerca de um terço das universidades europeias descobriu que o consumo responsável de álcool, especialmente de vinho, tem relação directa com níveis mais altos de ácidos gordos omega-3 no sangue. Quem o afirma por escrito é Jacob Gaffney, da revista Wine Spectator, baseando-se num novo estudo a publicar no American Journal of Clinical Nutrition. Mais de 1600 europeus foram analisados durante mais de um ano com medições periódicas dos níveis de omega-3 no sangue. No final do estudo, os cientistas chegaram à conclusão de que os consumidores moderados de vinho foram os que apresentaram melhores níveis de omega-3, se comparados com os abstémios ou com os consumidores mais abusadores. De todo o grupo, "os níveis mais saudáveis foram encontrados nas mulheres que bebiam até um copo de vinho por dia e nos homens que bebiam dois ou mesmo três copos", disse Romina di Giuseppe, epidemiologista biomédico da Universidade Católica de Campobasso, que liderou o estudo. Estudos anteriores já tinham demonstrado que a combinação de altos níveis de omega-3, muito frequentes em peixes gordos como o salmão e o atum, e o consumo moderado de vinho, está relacionado com corações mais saudáveis.


Na mesma revista pode ainda ler-se que o composto do vinho tinto que dá pelo nome de Resveratrol foi capaz de reduzir a quantidade de gordura produzida nos fígados de ratos, que tinham sido alimentados em laboratório com uma perigosa dieta de álcool. A acumulação de gordura no fígado era, até então, uma condição crónica regularmente associada ao alcoolismo. A pesquisa parece ter demonstrado que o Resveratrol aumenta o ritmo a que é eliminada a gordura do fígado. A explicação mais provável para este efeito é a de que este composto consegue controlar as enzimas que regulam o metabolismo da gordura nos ratos. Dado que as doses de Resveratrol administradas implicariam o consumo de várias garrafas de vinho por dia, os cientistas não aconselham, por motivos óbvios, que as pessoas, especialmente os alcoólicos, a beber para resolver problemas de saúde com o fígado.

Fonte: RV/WineSpectator

02/03/2009

Tarde em Itapoã




Poema de Vinicius de Moraes



Um velho calção de banho
O dia p'rá vadiar
Um mar que não tem tamanho
Um arco-iris no ar
Depois na praça Caymi
Sentir preguiça no corpo
E numa esteira de vime
Beber uma água de côco
É bom...
Passar uma tarde em Itapoã
Ao sol que arde em Itapoã
Ouvir o mar de Itapoã
Falar de amor em Itapoã
Enquanto o mar inaugura
Um verde novinho em folha
Argumentar com doçura
Com uma cachaça de rolha
E com o olhar esquecido
No encontro de céu e mar
Bem devagar ir sentindo
A terra toda a rodar
É bom...
Passar uma tarde em Itapoã
Ao sol que arde em Itapoã
Ouvir o mar de Itapoã
Falar de amor em Itapoã
Depois sentir o arrepio
Do vento que a noite traz
E o diz-que-diz macio
Que brota dos coqueirais
E nos espaços serenos
Sem ontem nem amanhã
Dormir nos braços serenos
Da lua de Itapoã

A reconquista cristã do casamento

O que não falta na Figueira da Foz são donzelas cristãs que, após uma tarde de apostas na roleta, desejam unir-se em casamento com um seguidor do islamismo.


Mais de um milénio depois, os mouros estão de volta a Portugal e desta vez querem casar connosco. Em 711 vieram para lutar; agora vêm para contrair matrimónio o que, pensando bem, é quase a mesma coisa, se não for mais sangrento. Por sorte, os cruzados continuam da atalaia e, depois de terem rechaçado a invasão da Península Ibérica, parecem prontos a impedir esta nova e igualmente perniciosa invasão das conservatórias.

Pessoalmente, confesso que não dei por nada. Só sei que os mouros voltaram porque, no espaço de pouco mais de um mês, dois cardeais foram ao casino da Figueira precatar as moças católicas contra os perigos do casamento com muçulmanos. Eu não conheço uma única senhora que pretenda desposar um muçulmano, nem imagino a razão pela qual os mouros, aparentemente, preferem noivas católicas frequentadoras de casinos. Mas a verdade é que, tendo em conta a frequência dos avisos e o local em que eles são emitidos, o que não falta na Figueira da Foz são donzelas cristãs que, após uma tarde de apostas na roleta, desejam unir-se em casamento com um seguidor do islamismo.

Vivemos tempos estranhos.

A única senhora com a qual travei conhecimento que casou com um mouro chamava-se Desdémona, e realmente viria a ser assassinada pelo marido, mas não é menos verdade que o principal responsável pela sua morte foi um cristão especialmente pérfido. Suponho que aconselhar as raparigas a evitarem os casamento com mouros que tenham subordinados cristãos particularmente malévolos seja menos eficaz, e até menos prático, mas de acordo com a minha experiência pessoal é, de facto, o mais apropriado.

Não quero com isto dizer que desconsiderei as recomendações dos cardeais.

Pelo contrário, tomei-as a sério: nunca ninguém me há-de ver casado com um muçulmano. Até porque conheço bem o perigo que corremos quando nos relacionamos com pessoas que interpretam literalmente os textos sagrados, como fazem muitos muçulmanos e o cardeal Saraiva Martins. Mas, em Dezembro de 2007, D. José Policarpo disse que o maior drama da humanidade era o ateísmo. Pouco mais de um ano depois, vem alertar as portuguesas para os malefícios do casamento com gente que acredita e muito em Deus, e esquece-se do perigo que representam os incréus. Não digo que, para impedir os casamentos entre católicos e ateus, volte a entrar num casino. Mas custa-me a compreender que não interrompa ao menos um jogo de poker para avisar as jovens católicas que pretendam casar-se com quem professa o maior drama da humanidade. A minha mulher deveria ter tido a oportunidade de saber o monte de sarilhos em que se ia meter. Estar casada com um palerma que não deseja matá-la por causa das suas convicções religiosas é um drama pelo qual nenhum ser humano deveria ser obrigado a passar.

in, Visão, Ricardo Araújo Pereira

27/02/2009

Crise de autoridade familiar leva ao aumento da violência nas escolas

Especialistas em educação defenderam que o aumento da violência nas escolas se deve, em parte, a uma crise de autoridade familiar, onde os pais renunciam a impor disciplina aos filhos, remetendo-se para os professores.

Vários especialistas internacionais reunidos na cidade espanhola de Valência debateram o assunto "Família e Escola: um espaço de convivência". Os participantes no encontro, dedicado a analisar a importância da família como agente educativo, consideram que é necessário evitar que todo o peso da autoridade sobre os menores recaia nas escolas, o que obriga a "um esforço conjunto da sociedade".

"As crianças não encontram em casa a figura de autoridade", um elemento fundamental para o seu crescimento, disse na conferência inaugural do congresso o filósofo Fernando Savater(*). "As famílias não são o que eram antes e hoje, o único meio com que muitas crianças contactam é a televisão, que está sempre em casa", sublinhou.

Para Savater, os pais continuam a "não querer assumir qualquer autoridade", preferindo que o pouco tempo que passam com os filhos "seja alegre" e sem conflitos, empurrando o papel de disciplinador quase exclusivamente para os professores. No entanto, e quando os professores tentam exercer esse papel disciplinador, "são os próprios pais e mães que não exerceram essa autoridade sobre os filhos que tentam exercê-la sobre os professores, confrontando-os", acusa.

"O abandono da sua responsabilidade retira aos pais a possibilidade de protestar e exigir depois. Quem não começa por tentar defender a harmonia no seu ambiente não tem razão para depois se ir queixar", sublinha. Há professores que são "vítimas nas mãos dos alunos". Savater acusa igualmente as famílias de pensarem que "ao pagar uma escola" deixa de ser necessário impor responsabilidades, alertando para a situação de muitos professores que estão "psicologicamente esgotados" e que se transformaram em "autênticas vítimas nas mãos dos alunos". "A liberdade" afirma, "exige uma componente de disciplina" que obriga a que os docentes não estejam desamparados e sem apoio, nomeadamente das famílias e da sociedade.

"A boa educação é cara, mas a má educação é muito mais cara", afirma, recomendando aos pais que transmitam aos seus filhos a importância da escola e a importância que é receber uma educação, "uma oportunidade e um previlégio". "Em algum momento das suas vidas, as crianças vão confrontar-se com a disciplina", frisa Fernando Savater.

Em conversa com os jornalistas, o filósofo explicou que é essencial perceber que as crianças não são hoje mais violentas ou mais indisciplinadas do que antes; o problema é que "têm menos respeito pela autoridade dos mais velhos". "Deixaram de ver os adultos como fontes de experiência e de ensinamento para os passarem a ver como uma fonte de incómodo. Isso leva-os à rebeldia", afirmou. Daí que, mais do que reformas dos códigos legislativos ou das normas em vigor, é essencial envolver toda a sociedade, admitindo Savater que "mais vale dar uma palmada no momento certo" do que permitir as situações que depois se criam. Como alternativa à palmada, o filósofo recomenda a supressão de privilégios e o alargamento dos deveres.

(*) Fernando Savater nasceu em 1947 na cidade espanhola de San Sebastián. Catedrático de ética pela Universidade Complutense de Madrid, é autor de uma vasta obra que abarca o ensaio, a narrativa e o teatro. Entre outros galardões, recebeu o Prémio Francisco Cerecedo da Associação de Jornalistas Europeus e o Prémio Sakharov de Direitos Humanos. Fernando Savater é um dos pensadores mais destacados em Espanha e tem vindo a ganhar grande popularidade no mundo.

Fonte: Agência Lusa (texto cedido por Helena Castelo)